13/07/2020

25 de novembro de 2019

  Por vezes penso se voltarei a respirar do mesmo jeito. Sem os pulsos desenfreados, ou o gelar que acomete minha espinha. Ao mesmo tempo, é curioso pensar todos os percursos mudados, raízes cortadas e compassos diferentes dados à respiração que eu desejava ter de volta. O entrar e sair do ar em meus pulmões de forma leve, limpa, jovem. É aos trancos e barrancos que tento aprender como faz, mais uma vez, mesmo sabendo de maneira inconsciente – ou não – que o ritmo jamais voltaria ao que era antes.
          Algum filósofo importante disse uma vez que nunca nos banhamos novamente nas mesmas águas. O curso do rio muda, desemboca, suja, limpa. Nós também.
          Por mais parecidas que sejam as histórias de amor, fins, começos, rastros, arrisco dizer que a única verdadeira recorrência entre elas é a certeza das marcas. Sejam as que ficam, sejam as que deixamos.
          Eu carrego a esperança de um dia voltar a respirar como antes. Sentir a inocência em meus pulmões, de que o amor da minha vida será tão fantástico que parar de respirar por alguns segundos será um ato de absurdo prazer. Onde, logo após, o ar faria seu curso com a mesma serenidade de antes para meus pulmões: leve, limpo, jovem.
          Mas vários foram os amores inspirados. Fortes e adoecedores como a fumaça de uns bons cigarros. E eu nunca precisei realmente fumar para saber disso.
          A realidade é que essa busca incessante de voltar a respirar como antes é o que mais me afasta disso. São todos esses novos ares, entrando e saindo de meus pulmões, que me levam a perceber que nunca voltaria a respirar como antes. E tudo bem.
          É necessário aprender que nunca nos banhamos no mesmo rio. Que as mudanças nunca nos levarão ao que éramos antes delas começarem. Que nossos pulmões, cansados de tantos ares doentios, não precisam buscar mais deles para voltarem a sentir o ar como em nosso princípio. Eles precisam descansar. Precisamos descansar.
          A frequência, os ares, as águas, os amores. Nunca nos levarão de volta ao que éramos. Nos levarão a algo muito melhor.
- Anne B.
*Texto publicado com autorização da autora