Correria! Naquele momento não importava mais o que a natureza estava a fazer, frio ou quente, estavam todos em perigo. A pobre anciã caiu, Orus correu para ajudá-la, quando a virou, seus olhos estavam lacrimejando, suas mãos tremiam e ela pôs-se a repetir "o primeiro tem seu nome". E o grande falcão se encontrou perdido, pela primeira vez, não sabia o que aconteceria, aquela mulher o havia criado por toda a vida e hoje seu talismã estava a piscar, estava a morrer. E então ele chorou, ao vê-la partir, deixou que suas lágrimas a banhassem de amor. Viu a pedra se apagar e sabia que não havia mais nada a ser feito. Chamou as águias, disse-lhe sobre os seus últimos desejos, assustaram-se, mas obedeceram. Levaram o corpo da anciã, Orus lembrou-se de guardar a pedra.
Quando saiu, viu a Legião apavorada. Os pássaros escondiam suas famílias em suas ocas, nos protegeram com a pouca magia que tinham. Perguntavam pela anciã, e não obtinham respostas. Sua visão ficou turva, não ouvia muito do que lhe diziam ou perguntavam. Foi quando sentiu o chão tremer, todos correram em desespero e ele apenas voltou a si quando pequenas folhas tocaram-lhe a cabeça. O domo mágico que os protegia havia sido quebrado, a magia havia ido junto com o corpo da pobre senhora. Pegou a pedra em seu bolso e viu um último cintilar, lá estava cravada a palavra que um dia teria sido o nome de uma rainha, apagando-se: Aquia.
"A imperatriz morreu, finalmente!", gritou ele para a multidão apavorada, "Seu corpo foi levado para as ninfas, assim como pediu. Sua magia foi levada junto. O falso rei e os corvos estão vindo. Devemos ser fortes e nos defender. A profecia se cumprirá, hoje."
"Mas, meu rei, o menino nem tem asas", disse-lhe um pombo.
Ele havia realmente esquecido que Taurus estava ali, procurou-o em meio a todos, foi até ele, avaliou suas costas e braços. E então estava confuso novamente, quando lembrou-se do que Aquia o disse: "o primeiro tem seu nome" e murmurou para si mesmo: "O primeiro tem meu nome... O primeiro rei pássaro... O primeiro da linhagem Hass! Mas ainda não entendeu o que aquilo significava. Voltou-se para o irmão e disse: "Procure por nosso pai, ele saberá como nos ajudar nessa batalha."
"Mas nosso pai está morto", respondeu Taurus assustado.
"Loriah, leve-o ao templo dos corvos", disse para seu fiel escudeiro.
"Majestade, não acho que deveríamos recorrer aos deuses antigos, são perigosos, assim como ele", disse um pardal apontando para Loriah.
"Precisa ultrapassar seus preconceitos se deseja sobreviver a esta batalha.", respondeu Orus para o pássaro, "Levem as crianças e mulheres para a ala dos corvos, nunca os procurarão lá"
"Nós ficaremos e lutaremos!", disse uma andorinha.
Orus sorriu, não havia como discordar, as mulheres eram fortes assim como qualquer homem da Legião dos Pássaros. Estavam todos prontos quando os corvos voaram por sobre a aldeia. "Legião de Aquia, apontar... Atirar!", ouviu a andorinha gritar. Flechas voaram ao encontro dos pássaros no céu e muitos caíram quando foram atingidos. A cavalaria do rei surgiu em meio às árvores. As flechas pararam e Orus gritou: "Por Aquia!" e o mesmo grito ecoou em toda a aldeia, enquanto muitos corriam e outros voavam. As cores estavam a lutar contra o marrom escuro do rei. Este, cavalgou em seu cavalo branco até o encontro do grande falcão para golpeá-lo com sua espada, mas o homem transformou-se em pássaro e esquivando do ataque. Subiu em seu cavalo, e o derrubou. "Venha, falso rei, lute comigo no chão!"
Taurus entrou na oca sagrada. Toda de cor preta, com penas de corvos por todos os lados e nada mais além de um altar no fundo onde uma pedra de turmalina repousava. Loriah não estava mais ao seu lado, saiu para a batalha. Estava escuro, não sabia o que fazer, quando percebeu que chorava. Quando suas lágrimas tocaram o chão, tudo ganhou vida, um brilho de cor roxa tomou conta do lugar e a sua frente a imagem de homem apareceu. Alto e forte, o rosto coberto de pelos ruivos, assim como a cor dos cabelos, seus olhos verdes brilhavam, o viu dar um leve sorriso. Parecia estar vestindo um manto roxo, mas era apenas a distorção da realidade, a magia.
"Orus me mandou, disse que você me ajudaria... nos ajudaria. Na batalha.", disse o menino tremendo com a voz.
"Infelizmente não posso fazer muita coisa, não pertenço mais aos domínios de Nah. Agora vivo no mundo dos mortos, dominado por Corviah. A pessoas não costumam falar dele, pois é um deus pássaro antigo, que pensam estar morto, mas não está.", sua voz era forte e convincente, "Diga ao seu irmão que ele precisa manter o foco. O falso rei irá usar de estratégias covardes, a luta não será justa. Mas você pode ajudá-lo; vê as pedras embaixo de seus pés? São obsidianas, elas irão te ajudar na batalha. Leve algumas e logo saberá como usá-las."
"Obrigado", pegou algumas e pôs em seu bolso, "mais uma coisa: você é Yorah?", perguntou o menino nervoso.
"Não, meu jovem, sou Orus, o primeiro rei pássaro"
"Você pode mandar um recado para ele? Diga-lhe... que eu sinto falta dele"
"Pode deixar", e desapareceu em fumaça roxa. Taurus saiu de lá e viu a ala dos corvos quase vazia, algumas mulheres e crianças escondiam-se nas ocas. Ele saiu confiante, pegou uma pedra em seu bolso e a colocou contra o sol. Correu para a batalha.
Loriah lutava contra dois corvos no céu e os outros estavam ao chão. Muitos pássaros voavam em ataque aos cavaleiros. Quando viu o rei lutando com o irmão, atrás de Orus estava um outro homem com a espada em punho, ele parecia estar pronto para cumprir com uma armadilha contra o grande falcão. Taurus gritou, mas não foi ouvido, olhou para a pedra em sua mão e pediu a resposta necessária. Nada. Estava nervoso. Viu os homens e mulheres a sua volta, estava mais que perdido. Olhou para o irmão, quase sendo acertado pela espada, apertou a pedra com os dedos e então percebeu o que deveria ser feito. Pegou um arco jogado ao seu lado, pôs a pedra apontada para o cavaleiro e lançou.
Pretendia acertar o homem, mas o som da pedra se chocando com o aço da espada fez com que o irmão notasse a presença do cavaleiro e transformou-se em pássaro. O golpe fora efetuado sem sucesso enquanto ele pousava no ombro do homem e arranhava sua garganta com as garras. Voltou a forma humana, apossou-se da espada, o rei correu em sua direção quando uma pedra o acertou a cabeça. Ele tombou. Quando abriu os olhos, Orus estava com a espada erguida. Com um grito de guerra anunciando o golpe, fez o aço atravessar o peito do homem.
Tudo parou. E depois de um longo minuto de silêncio, enquanto alguns cavaleiros fugiam. Os pássaros jogaram suas bênçãos para Orus, suas penas mudaram de cor, lá estava o legítimo rei pássaro. "O primeiro tem meu nome", lembrou. Era dele que a profecia falava. E os pássaros se curvaram diante a majestade. A batalha terminara e tudo voltaria ao normal. Taurus se aproximou do irmão, tocou-lhe a mão tatuada e disse: "Humanos e pássaros irão conviver em harmonia".