31/01/2019

O Rei e os Pássaros (Dois)

   Então a chuva! Mas não aquela que te convida a brincar e correr, se jogar na lama e balançar as árvores para que caiam pingos no rosto e o vento fresco tocasse o corpo. Era uma chuva forte, violenta, que empurra as árvores quase as arrancando do chão, trovões fortes de fazer arrepiar todos os pelos da pele, raios caem no meio da floresta e o coração dispara de medo, os touros se escondem e os pássaros desistem de voar. A chuva era, dentre todos os estados emocionais da mãe natureza - chamada muitas vezes de Nah, a deusa dos animais, árvores e rios, era quem comandava Vatus, o deus dos ventos e das chuvas, Niima, deusa dos animais e do instinto humano e Rian, o deus dos rios e das águas - a pior das inimigas de Taurus. Enquanto ele observava todo o vendaval de sua janela, o sentimento de tristeza se transformava em raiva. Levantou da cama ao cantar do galo, estava pronto para viver o mundo e se sentir livre, mas parece que seus planos seriam outros, deitou-se na cama, observou a rachadura e ouviu a voz de sua mãe à porta do quarto:
   "Não penses que irás passar o dia deitado, sei que não gostas de dias chuvosos e também que iríamos à feira, mas não será para sempre. Enquanto isso vamos organizar a fazenda, não viveremos em meio à sujeira!"
  "Nah, com toda certeza, não está feliz hoje, muito menos eu. Que os deuses me mandem uma ajuda!", calou-se e ouviu batidas, fortes e pesadas.
  Ouviu Oria abrir a porta, levanta-se rapidamente e vai ver quem está lá. Um homem vestido com uma roupa toda preta e enfeitada de penas da mesma cor, os cabelos curtos bagunçados, uma mancha de sangue em sua bochecha e o olhar de medo. Naquele momento, o destino estava a revirar toda a curta vida de Taurus e ele mal sabia. Aquele estranho aparecendo de repente com um ar de mistério e a frase que fez com que o menino se arrepiasse todo, misturando tudo com o sentimento de dúvida, medo e esperança. A expressão da mãe de surpresa deixando o clima ainda mais denso e quase palpável ao ouvir: "vocês correm perigo".
   Ela abriu mais a porta para que entrasse, Taurus saiu do quarto e já perguntou: "Quem é você?", enquanto sua mãe já lhe respondeu afirmando ser um amigo da família e o homem diz:
   "Loriah, comandante da Guarda dos Pássaros e um grande amigo do seu pai"
   "Meu pai?", perguntou surpreso
   "Loriah, vamos esclarecer tudo na cozinha enquanto Taurus permanece em seus aposentos", disse Oria
   "Não há tempo, todos os esclarecimentos devem ser feitos ao decorrer da viagem. Agora devemos partir", disse o homem, "O menino corre perigo e é preciso protegê-lo, os soldados do rei logo saberão a verdade e virão buscá-lo"
   "Mãe, o que está acontecendo?", ainda estava sem entender.
   "Oria, me escute, temos de ir, agora"
   "Como tudo isso foi acontecer?", Oria perguntou
   "Tudo será explicado"
   Arrumaram as malas que foram possíveis de carregar. Uma carruagem os aguardava em meio a chuva, vários homens vestidos da mesma forma que Loriah, mas com um tom avermelhado, reparou que seus olhos eram como de águias. O homem lhes deu uma ordem, os outros se organizaram em duas filas na frente da carruagem, simples, completamente coberta por flores, folhas e galhos, de uma só vez eles criaram asas em suas costas. Eram vermelhas e brilhavam quando o pouco de luz daquele dia encostava nelas e refletia o ouro. Taurus parou quando viu e imaginou que fosse coisa de sua imaginação, mas não era, estava ali, acontecendo. Entrou e reparou que dentro da locomoção era de igual decoração como a parte de fora. Pela janela viu o soldado se transformar em um corvo e abriu mais os olhos, sua mãe lhe tocou o braço e o puxou em um abraço forte. Lá ficaram até o corvo entrar e se transformar em homem novamente.
   "Como você...", Taurus estava curioso, mas foi cortado pela mãe
   "Há perguntas mais importantes nesse momento. Loriah, por favor, nos explique o que está havendo, aconteceu alguma coisa com...", não terminou a frase, deixou para que ele entendesse e logo respondeu
   "Não, ele está bem. Um de nossos pardais ouviu, pelas janelas do castelo, que um rumor sobre uma profecia que um novo rei surgiria, de nome forte e longa linhagem, que suas asas seriam tão belas quanto as de todos os pássaros, que seria corajoso como todos os touros e viria de onde menos imaginassem. Após algumas semanas observando as conversas, viu um corvo - ele parou e respirou, parecia não gostar de dizer aquilo - entrando no castelo e usufruindo de regalias, suspeitamos que este é um traidor disposto a desvendar a verdadeira identidade do homem citado na profecia. O rei teme este homem, e pretende matá-lo, antes que, como diz a profecia, ele o mate. - virou-se então para Taurus e disse - estamos dispostos a fazer a sua segurança, daremos nossa vida para lhe proteger."
   O garoto ficou em silêncio, não sabia o que dizer, no fim compreendera que tudo aquilo se tratava dele e que teria asas, como os homens que puxavam a carruagem na qual estava, se perguntou se também seria um corvo, ou simplesmente um menino com asas. E então pensou mais, lembrou que a profecia falava sobre um homem, não um garoto e então questionou. Sua mãe lhe explicou que no seu décimo oitavo ciclo se tornaria um homem feito e que teria idade suficiente para que os Hass viessem lhe buscar e tomar a coroa do rei. Contou sobre a linhagem dos Tohrn e sobre a linhagem dos Hass, ele seria rei de toda a Diama, um reino construído da junção destas duas famílias há muitos anos que foi mascarado, pois as pessoas estavam descobrindo o segredo dos Hass. Eram muitas informações, mas ele queria entender tudo aquilo e pensou que só assim poderia dar uma vida digna para sua mãe, resolveu, naquele momento, que lutaria por isso.
   "Mas qual o segredo dos Hass?", perguntou
   Loriah responderia à sua pergunta, mas a carruagem balançou forte e ele viu um dos homens alados passar pela janela, caindo. Logo transformou-se em corvo e saiu voando, ouviram gritos de fúria e também de dor, a carruagem começou a cair, Taurus agarrou-se em sua mãe, um corvo passou pela janela, imaginaram ser o comandante da guarda, mas não era. O outro homem tinha marcas de garras no rosto e usava roupas pretas rasgadas, os cabelos longos e emaranhados aumentavam o cheiro forte de sujeira e imundície acumuladas nas entranhas de seu corpo, os dentes amarelados e os olhos pretos como a noite mais escura. Agarrou o menino e a mulher, empurrou ele para fora que foi rapidamente capturado por um homem alado, mas de asas escuras, logo atrás viu Oria nos braços de outro homem de preto. Não sabia onde estava Loriah, imaginou que estivesse morto, tentou ver os homens vermelhos, mas só viu vultos de escuridão, sabia que não podia tentar se soltar, pois se caísse daquela altura, certamente morreria. Foi então que olhou para a frente e reparou que estavam sendo levados para o castelo.

Continuação: 10 de fevereiro

11/01/2019

O Rei e os Pássaros (Um)

   Então a luz! Forte, inebriante, faz cegar, ilumina e diz: "Ei, vem viver!". Mas era completamente difícil viver em uma época sombria onde até o mais forte raio solar parecia estar escuro e vazio, seria possível sorrir de novo? Apenas as pequenas coisas eram capazes de alegrar e lá estava uma delas, aquele som, uma voz forte e poderosa, a voz de alguém que não desistiu nenhum segundo de lutar para viver sorrindo, que faz com que todos à volta se sintam acolhidos e amados, adorada, muitos homens lutaram e, hoje, seguem lutando para ouvir todos os dias quando o sol invadisse as cortinas da casa fazendo acordar os moradores, e um único homem tinha essa honra. Entre passos e pequenos tapas ele ouvia:
   "Filho, acorde, já passou muito tempo dormindo. O mundo chama para aproveitar de suas belezas e você ainda está a dormir".
   Então ele abriu os olhos e percebeu que lá estava ela, a mulher mais cobiçada e querida de toda a vila, sua mãe, Oria, filha de Josel e Oret, neta de Gatto e Ohan, herdeira da longa linhagem do sangue dos Tohrn. Usava um vestido simples e um pedaço de pano amarrado na cabeça, em uma olhada rápida percebeu que o avental estava sujo com farinha. Depois de um momento em que seus sentidos se aguçaram, sentiu o cheiro, sim, aquele cheiro doce de bolo, deitou-se com o peito para cima, fechou os olhos e pensou: "cenoura". Sentiu um leve beijo em seu rosto e sorriu. Com todos aqueles convites a levantar, o sono ainda era um cavaleiro muito forte e aquela batalha árdua. Em meio a resmungos e gemidos, finalmente bocejou e disse:
   "Se os ventos do norte não te trouxessem a mim, com certeza eu iria em sua busca"
   "Sabes que não ganhará uma fatia extra por tentar me impressionar"
   "Oh! Donzela, não me faças voltar a sonhar para que possas, enfim, te ter em meus braços"
   "Vamos, levante. Os porcos desejam te abraçar, mas terá que dá-los alimento antes, estão famintos", disse-lhe enquanto saía do quarto.
   Olhou para cima, viu a mesma rachadura de todos os dias e respirou. Não estava disposto a levantar, mas logo o teria de fazer, ou sua mãe voltaria com um balde de água e o banharia na cama. Seu quarto simples era uma extensão do restante da fazenda, completamente feita de pedra, no alto da colina faz frio, então era uma forma de se esquentar. Há rumores, de que na fazenda, vivem monstros de pedra, fadas do gelo, gnomos, anões, e até um sequestrador de crianças, mas nada disso é verdade, ele até ri muitas vezes dessas estórias. É incrível como a imaginação fértil de uma criança é em relação a pequenos contos criados na simples intenção de assustar, alguns até fazem pensar e dão verdadeiros ensinamentos, mas no caso da "Fazenda de Pedra", como era conhecida na vila, era de botar medo em qualquer um que tentasse chegar perto. E lá ele vivia, um dia de cada vez, sem poder sair. Sua mãe contava que era perigoso ver o mundo, pois o mesmo estava corrompido com trevas. Enquanto ela saia diariamente para trabalhar na casa de um cavaleiro do rei, cuidando de sua filha. Sir. Ilian Reitan era viúvo de uma bela moça chamada Clara, um dia ele acordou e ela não estava ao seu lado, os lençóis estavam sujos com sangue e marcas de patas que pareciam ser de lobos. Não se sabe ao certo o que aconteceu a ela, mas as pegadas formavam uma trilha que dava na floresta sombria, após 5 dias ele desistiu das buscas e aceitou que perdera seu grande amor.
   Enfim levantou e foi até a cozinha, viu que estava vazia, tomou a liberdade de furtar um biscoito de chocolate do pote. Comeu um pedaço e saboreou aquele divino gosto de liberdade, sentiu-se nas fazendas de cacau com outros fazendeiros cantando e colhendo. Imaginou o vento em seu rosto e o sol queimando sua pele exposta. Não era diferente do que ir na varanda e sentir o vento ou deitar na grama e sentir o sol, mas liberdade de poder sentir outros ventos e outros sóis fazia com que ele imaginasse frequentemente a possibilidade de visitar outros lugares. Ao abrir os olhos, terminou de comer e procurou a mãe, ela estava no pomar, cavando terra com os pés no chão e cantava. A linda canção, unida com a bela voz de Oria, invadiu seus ouvidos e logo reconheceu a melodia de uma música que falava sobre uma bela moça que vivia a buscar a rosa mais bela para seu casamento.
   "Essa canção me lembra muito uma pessoa", disse ele, aparecendo de surpresa e dando um susto em sua mãe que a fez gritar.
   "Já lhe disse que não fizesse esse tipo de coisa, um dia morrerei por isso"
   "Ora, deixe de dizer bobagens. Ninguém morre de susto"
   "Sabes bem da estória dos dois irmãos"
   "Sei, contaste-me várias vezes, e não pretendo ouvir mais uma vez", ela sorriu, "Posso pedir-lhe uma coisa?"
   "Se for aquela mesma pergunta, já estás ciente da resposta!"
   "Mas eu preciso sair! Conhecer o mundo, conheces minha vontade de viajar e saber das pessoas. Respirar o mesmo ar que elas. Não quero perecer uma eternidade cuidando de porcos."
   "Por falar em porcos..."
   "Eles podem esperar. São animais, não se importam"
   "Mas estão vivos, sentem fome e sede de água limpa"
   "Um presente de aniversário!", ela parou de cavar, respirou e sorriu, essa era sua expressão quando sabia que perderia aquele jogo. "Lembra da promessa de não deixar de realizar um pedido de presente em meu aniversário?"
   "Claro que lembro. Hoje me arrependo de tê-la feito"
   "Mas vai cumprir, certo?", depois de um longo silêncio ela respondeu olhando-o nos olhos:
   "Um dia apenas, amanhã irei à feira, virás comigo. Mas fará tudo o que eu mandar, e obedecerás sem reclamar."
   Ele pulou, gritou e correu para abraçá-la ali mesmo no chão de areia. Beijou-a diversas vezes no rosto e então sentou-se ao seu lado. Ela acariciou seu rosto e disse:
   "Aparentas muito a teu pai. Gostava de ser livre, viajamos para longe, muitas vezes, vimos paisagens dignas de uma bela pintura. Ah, meu filho, não sabes o aperto que me dá saber que só terei mais um ciclo ao teu lado", ele abriu a boca para falar e ela o interrompeu, "Não pergunte, na hora certa saberá! Por enquanto saiba que tenho orgulho de você. Hoje completa 17 ciclos, filho de Yorah e Oria Hass, herdeiro da terra e dos céus, fruto da união das famílias dos touros e dos pássaros, forte e livre, seu nome vem de um legado e por isso te chamas Taurus Hass."


Continuação: 31 de janeiro