E então o calor! Quando o sol encosta na sua pele e faz queimar, enquanto todo o seu corpo esquenta. Que faz as flores se abrirem para obterem acesso à luz do sol, os animais se refrescam nos riachos e rios que correm como o tempo. As pessoas vestem roupas leves para que não desmaiem e sobrevivam até o fim do dia. Crianças banham-se em grandes recipientes com água e se divertem como se não se importassem com mais nada, e realmente não o fazem. O calor aquece as almas, os sentimentos, os corpos, a vida. Enquanto os pássaros voam por aí com o vento no rosto, livres, só sentindo a brisa passar por suas asas e vendo toda aquela cena de um ângulo que até parece irreal. Taurus observou tudo aquilo e sentiu a liberdade que tanto desejou, aquele pequeno momento. Olhou para Oria, estava linda, os cabelos a voarem, de braços abertos enquanto o homem alado a segurava, como se já houvesse feito aquilo antes, imaginou que segredos poderia guardar, mas logo percebeu que nada mais fazia tanto sentido se não pudesse vê-la sorrindo.
O falcão passou voando ao seu lado e parecia aproveitar cada minuto daquele voo, então crocitou e todos os pássaros e os dois homens alados começaram a descer para o meio das árvores. Era uma floresta densa, Taurus imaginou que estivesse em uma nova emboscada, morreria ali, seria jogado com força e cairia no chão. Não conseguiu se mexer, os outros pássaros passaram muito rápido e não conseguiu localizar a mãe, respirava rápido, o coração acelerava, conseguiu ouvir o barulho de muitas aves juntas, estava quase a se debater quando fechou os olhos e sentiu atravessar em uma espécie de proteção mágica e abriu os olhos.
Era o lugar mais lindo que já havia visto, os pássaros voavam por toda a parte, o sol entrava pelas brechas dos galhos das árvores e iluminava todo o espaço. Cores vivas em toda a parte, até parecia uma obra de arte. Ocas de madeira e palha eram espalhadas por todo o lugar, definidas de forma aleatória. Pequenas crianças correm, até voam, algumas com bicos, ou penas espalhadas pelo corpo, asas coladas nos braços. Ficou curioso em saber o motivo de tal anomalia, mas ficou quieto por um instante. Girou em torno de si mesmo e viu uma fonte de água decorada com a escultura de várias espécies de pássaros, uma coluna cheia deles saia do chão no meio da água, mulheres lavavam roupa e algumas crianças se banhavam. Tudo era harmonia, quando viu o lado escuro da vila, com ocas de uma palha de cor preta, um homem estava dentro de uma, era Loriah. Andou até ele.
"É aqui que vives?", perguntou.
"Sim, sim. Infelizmente não tenho mais irmãos por perto, desertaram. Só eu fiquei, para nos proteger da ira do rei."
"Suponho que aqui vivam os corvos, estou certo?"
"Exato... Tínhamos uma vida ótima aqui, uma harmonia que não findava. Até que..."
"Se não quiseres, não precisa falar", disse Taurus.
"Foi meu irmão, iniciou uma revolta depois que... que nossa irmã foi morta em batalha. Achou ele que nós, corvos, não merecemos viver com os outros. Nos resta sempre a injustiça. Então criou-se uma cultura de que somos rebeldes. Desde o dia da partida, quando todas as famílias se foram, somos desrespeitados. Eu fiquei, pois minha lealdade é maior, o grande falcão confia em mim, o restante da vila acha que vou traí-lo a qualquer momento. Apenas ignoro e continuo fazendo meu papel."
"E faz muito bem, meu amigo", disse Orus, pôs uma das mãos nos ombros de Taurus. "Agora vamos conhecer a sua história"
Em uma oca enfeitada de penas multicolores, Orus apresentou a ele todos os outros líderes da Aldeia Hass, uma linhagem quase infinita de tantos outros, pintados em quadros feitos com madeira retorcida e uma pena diferente em cada um. Viu a árvore genealógica dos Hass, notou que duas pessoas estavam em maior destaque. As silhuetas de um homem e uma mulher com duas águias desenhadas às suas costas, eram os primeiros da linhagem, seus nomes eram Orus e Aquia. Bem no centro da oca estavam seus quadros, a madeira com traços de ouro, flores e as penas majestosas. Sentiu uma mão em seu ombro esquerdo, uma senhora baixinha o olhava com um sorriso, os cabelos trançados e pele negra, usava uma espécie de vestido cinza, sandálias marrons nos pés e um colar com uma pedra azul que cintilava.
Ela olhou bem para Taurus e começou a falar antes mesmo que o menino pudesse se apresentar
"O sol no alto do céu anuncia a chegada do homem alado, aquele com penas magníficas, forte como um touro, abençoado por todos os pássaros. Ele matará o rei e tomará de volta o reino para aquele que o herdar. A linhagem de sangue continuará a ocupar o trono, humanos e pássaros irão conviver em harmonia", e então andou pela oca, pegou uma tigela de barro, voltou e parou na frente do menino, com um gesto simples pediu que ficasse de joelhos no chão.
Ele se ajoelhou e ela levantou sua cabeça, a idosa passou os dedos na areia de cor vermelha que havia dentro da tigela e fez um desenho na testa de Taurus. Uma linha reta feita da esquerda para a direita com três pontos acima. Chamou Orus, pediu para ajoelhar-se e também desenhou em sua testa. Uma linha meio inclinada para esquerda, na vertical e com dois pontos no topo, mais duas linhas horizontais ao lado, uma inclinada para cima e outra para baixo, como ondas. Os dois se olharam, a moça levantou a mão direita de cada um e as encostou, a areia de suas testas voou em direção ao encontro das mãos. Depois de sentirem uma leve coceira olharam para suas mãos e viram lá os desenhos gravados como tatuagem. Suas mãos esquerdas também coçaram e lá estavam tatuagens, o mesmo desenho. Dois pontos dando origem a quatro linhas curvadas na vertical. Orus encarou a moça que sorria enquanto confirmava com a cabeça.
"Irmão!", ele disse e abraçou Taurus com força. "Você é meu irmão!"
Naquele mesmo momento Loriah entrou na oca e disse: "A cavalaria do rei... está vindo para cá".
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