Escrever esta carta sobre família é um pouco complicado. Pois é o que sustenta a sociedade, é o que faz, pelo contrário do que pensam, um país ir pra frente. Estou aqui levando tudo para o lado político da coisa, mas vou falar de família. Não se preocupe!
Família é algo sério para mim. Algo que sinto falta. Moro com meu avô, já que meus pais e minha avó morreram em um acidente de carro. Penso eu que a morte não desistiu de minha avó, pois tinham acabado de sair do hospital quando ela teve um derrame. É algo que nunca comento com meu avô, porquê ele já tem 84 anos e pode não suportar lembrar. Mas ele costuma dizer que se arrepende de não estar com ela na hora do acidente, já que última lembrança que tem dela é da hora do derrame. Cena que ele nunca vai esquecer...
É um mundo cheio de surpresas, esse nosso. Meu avô me contou tudo sobre eles. Disse que quando eram jovens, os rapazes tinham medo dele. E que já colocara para correr os vários que tentavam se aproximar de vovó. Era valente! Cavalheiro! Forte! Sabia que vovó não estava com ele por causa disso; ele a amava, e ela retribuía esse amor. "Era algo lindo para a época, e algo raro para hoje", como diz ele. Ver um casal de namorados andando pela rua de mãos dadas e se olhando a cada instante de tempo com um sorriso nos lábios.
Me contou, também, que ganharam o concurso de beijo mais apaixonado cinco vezes seguidas. Até que seu amigo arranjou uma namorada, o qual treinava com a mesma na porta de casa todas as noites. E assim começou! Depois de dois anos o concurso acabou, pois os casais começaram a ficar nas portas e praças. Vovô disse que nunca viu tantos beijos ao ar livre. Então eu disse que ele não visse o carnaval em Salvador, desde esse dia ele não liga a televisão durante os quatro dias de festa. E aprendemos a jogar baralho, ler, conversar e ir tomar sorvete durante esses dias.
Descobri que a família pode ser um lugar de diversão. Passo todo o dia com ele, tenho um professor particular que me dá aulas em casa, para não ter que deixá-lo sozinho. Tenho medo de que algo aconteça com ele e não possa mais vê-lo. Só não gosto de pensar na faculdade... Ainda não decidi qual vai ser o meu curso, mas sei que só vou começar quando vovô não estiver aqui. Pois, como disse, não gosto de deixá-lo só. Mesmo que tenham vizinhos ao lado, confio mais em mim. Pessoas não são confiáveis, ainda mais quando se trata de quem amamos.
Eu o amo, eu cuido dele. Para um dia, do céu, ele cuidar de mim.
Obs: Texto fictício, baseado em fatos reais.
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