Então a chuva! Mas não aquela que te convida a brincar e correr, se jogar na lama e balançar as árvores para que caiam pingos no rosto e o vento fresco tocasse o corpo. Era uma chuva forte, violenta, que empurra as árvores quase as arrancando do chão, trovões fortes de fazer arrepiar todos os pelos da pele, raios caem no meio da floresta e o coração dispara de medo, os touros se escondem e os pássaros desistem de voar. A chuva era, dentre todos os estados emocionais da mãe natureza - chamada muitas vezes de Nah, a deusa dos animais, árvores e rios, era quem comandava Vatus, o deus dos ventos e das chuvas, Niima, deusa dos animais e do instinto humano e Rian, o deus dos rios e das águas - a pior das inimigas de Taurus. Enquanto ele observava todo o vendaval de sua janela, o sentimento de tristeza se transformava em raiva. Levantou da cama ao cantar do galo, estava pronto para viver o mundo e se sentir livre, mas parece que seus planos seriam outros, deitou-se na cama, observou a rachadura e ouviu a voz de sua mãe à porta do quarto:
"Não penses que irás passar o dia deitado, sei que não gostas de dias chuvosos e também que iríamos à feira, mas não será para sempre. Enquanto isso vamos organizar a fazenda, não viveremos em meio à sujeira!"
"Nah, com toda certeza, não está feliz hoje, muito menos eu. Que os deuses me mandem uma ajuda!", calou-se e ouviu batidas, fortes e pesadas.
Ouviu Oria abrir a porta, levanta-se rapidamente e vai ver quem está lá. Um homem vestido com uma roupa toda preta e enfeitada de penas da mesma cor, os cabelos curtos bagunçados, uma mancha de sangue em sua bochecha e o olhar de medo. Naquele momento, o destino estava a revirar toda a curta vida de Taurus e ele mal sabia. Aquele estranho aparecendo de repente com um ar de mistério e a frase que fez com que o menino se arrepiasse todo, misturando tudo com o sentimento de dúvida, medo e esperança. A expressão da mãe de surpresa deixando o clima ainda mais denso e quase palpável ao ouvir: "vocês correm perigo".
Ela abriu mais a porta para que entrasse, Taurus saiu do quarto e já perguntou: "Quem é você?", enquanto sua mãe já lhe respondeu afirmando ser um amigo da família e o homem diz:
"Loriah, comandante da Guarda dos Pássaros e um grande amigo do seu pai"
"Meu pai?", perguntou surpreso
"Loriah, vamos esclarecer tudo na cozinha enquanto Taurus permanece em seus aposentos", disse Oria
"Não há tempo, todos os esclarecimentos devem ser feitos ao decorrer da viagem. Agora devemos partir", disse o homem, "O menino corre perigo e é preciso protegê-lo, os soldados do rei logo saberão a verdade e virão buscá-lo"
"Mãe, o que está acontecendo?", ainda estava sem entender.
"Oria, me escute, temos de ir, agora"
"Como tudo isso foi acontecer?", Oria perguntou
"Tudo será explicado"
Arrumaram as malas que foram possíveis de carregar. Uma carruagem os aguardava em meio a chuva, vários homens vestidos da mesma forma que Loriah, mas com um tom avermelhado, reparou que seus olhos eram como de águias. O homem lhes deu uma ordem, os outros se organizaram em duas filas na frente da carruagem, simples, completamente coberta por flores, folhas e galhos, de uma só vez eles criaram asas em suas costas. Eram vermelhas e brilhavam quando o pouco de luz daquele dia encostava nelas e refletia o ouro. Taurus parou quando viu e imaginou que fosse coisa de sua imaginação, mas não era, estava ali, acontecendo. Entrou e reparou que dentro da locomoção era de igual decoração como a parte de fora. Pela janela viu o soldado se transformar em um corvo e abriu mais os olhos, sua mãe lhe tocou o braço e o puxou em um abraço forte. Lá ficaram até o corvo entrar e se transformar em homem novamente.
"Como você...", Taurus estava curioso, mas foi cortado pela mãe
"Há perguntas mais importantes nesse momento. Loriah, por favor, nos explique o que está havendo, aconteceu alguma coisa com...", não terminou a frase, deixou para que ele entendesse e logo respondeu
"Não, ele está bem. Um de nossos pardais ouviu, pelas janelas do castelo, que um rumor sobre uma profecia que um novo rei surgiria, de nome forte e longa linhagem, que suas asas seriam tão belas quanto as de todos os pássaros, que seria corajoso como todos os touros e viria de onde menos imaginassem. Após algumas semanas observando as conversas, viu um corvo - ele parou e respirou, parecia não gostar de dizer aquilo - entrando no castelo e usufruindo de regalias, suspeitamos que este é um traidor disposto a desvendar a verdadeira identidade do homem citado na profecia. O rei teme este homem, e pretende matá-lo, antes que, como diz a profecia, ele o mate. - virou-se então para Taurus e disse - estamos dispostos a fazer a sua segurança, daremos nossa vida para lhe proteger."
O garoto ficou em silêncio, não sabia o que dizer, no fim compreendera que tudo aquilo se tratava dele e que teria asas, como os homens que puxavam a carruagem na qual estava, se perguntou se também seria um corvo, ou simplesmente um menino com asas. E então pensou mais, lembrou que a profecia falava sobre um homem, não um garoto e então questionou. Sua mãe lhe explicou que no seu décimo oitavo ciclo se tornaria um homem feito e que teria idade suficiente para que os Hass viessem lhe buscar e tomar a coroa do rei. Contou sobre a linhagem dos Tohrn e sobre a linhagem dos Hass, ele seria rei de toda a Diama, um reino construído da junção destas duas famílias há muitos anos que foi mascarado, pois as pessoas estavam descobrindo o segredo dos Hass. Eram muitas informações, mas ele queria entender tudo aquilo e pensou que só assim poderia dar uma vida digna para sua mãe, resolveu, naquele momento, que lutaria por isso.
"Mas qual o segredo dos Hass?", perguntou
Loriah responderia à sua pergunta, mas a carruagem balançou forte e ele viu um dos homens alados passar pela janela, caindo. Logo transformou-se em corvo e saiu voando, ouviram gritos de fúria e também de dor, a carruagem começou a cair, Taurus agarrou-se em sua mãe, um corvo passou pela janela, imaginaram ser o comandante da guarda, mas não era. O outro homem tinha marcas de garras no rosto e usava roupas pretas rasgadas, os cabelos longos e emaranhados aumentavam o cheiro forte de sujeira e imundície acumuladas nas entranhas de seu corpo, os dentes amarelados e os olhos pretos como a noite mais escura. Agarrou o menino e a mulher, empurrou ele para fora que foi rapidamente capturado por um homem alado, mas de asas escuras, logo atrás viu Oria nos braços de outro homem de preto. Não sabia onde estava Loriah, imaginou que estivesse morto, tentou ver os homens vermelhos, mas só viu vultos de escuridão, sabia que não podia tentar se soltar, pois se caísse daquela altura, certamente morreria. Foi então que olhou para a frente e reparou que estavam sendo levados para o castelo.
Continuação: 10 de fevereiro
Continuação: 10 de fevereiro
Ficou ótimo, esperando a continuação
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