11/01/2019

O Rei e os Pássaros (Um)

   Então a luz! Forte, inebriante, faz cegar, ilumina e diz: "Ei, vem viver!". Mas era completamente difícil viver em uma época sombria onde até o mais forte raio solar parecia estar escuro e vazio, seria possível sorrir de novo? Apenas as pequenas coisas eram capazes de alegrar e lá estava uma delas, aquele som, uma voz forte e poderosa, a voz de alguém que não desistiu nenhum segundo de lutar para viver sorrindo, que faz com que todos à volta se sintam acolhidos e amados, adorada, muitos homens lutaram e, hoje, seguem lutando para ouvir todos os dias quando o sol invadisse as cortinas da casa fazendo acordar os moradores, e um único homem tinha essa honra. Entre passos e pequenos tapas ele ouvia:
   "Filho, acorde, já passou muito tempo dormindo. O mundo chama para aproveitar de suas belezas e você ainda está a dormir".
   Então ele abriu os olhos e percebeu que lá estava ela, a mulher mais cobiçada e querida de toda a vila, sua mãe, Oria, filha de Josel e Oret, neta de Gatto e Ohan, herdeira da longa linhagem do sangue dos Tohrn. Usava um vestido simples e um pedaço de pano amarrado na cabeça, em uma olhada rápida percebeu que o avental estava sujo com farinha. Depois de um momento em que seus sentidos se aguçaram, sentiu o cheiro, sim, aquele cheiro doce de bolo, deitou-se com o peito para cima, fechou os olhos e pensou: "cenoura". Sentiu um leve beijo em seu rosto e sorriu. Com todos aqueles convites a levantar, o sono ainda era um cavaleiro muito forte e aquela batalha árdua. Em meio a resmungos e gemidos, finalmente bocejou e disse:
   "Se os ventos do norte não te trouxessem a mim, com certeza eu iria em sua busca"
   "Sabes que não ganhará uma fatia extra por tentar me impressionar"
   "Oh! Donzela, não me faças voltar a sonhar para que possas, enfim, te ter em meus braços"
   "Vamos, levante. Os porcos desejam te abraçar, mas terá que dá-los alimento antes, estão famintos", disse-lhe enquanto saía do quarto.
   Olhou para cima, viu a mesma rachadura de todos os dias e respirou. Não estava disposto a levantar, mas logo o teria de fazer, ou sua mãe voltaria com um balde de água e o banharia na cama. Seu quarto simples era uma extensão do restante da fazenda, completamente feita de pedra, no alto da colina faz frio, então era uma forma de se esquentar. Há rumores, de que na fazenda, vivem monstros de pedra, fadas do gelo, gnomos, anões, e até um sequestrador de crianças, mas nada disso é verdade, ele até ri muitas vezes dessas estórias. É incrível como a imaginação fértil de uma criança é em relação a pequenos contos criados na simples intenção de assustar, alguns até fazem pensar e dão verdadeiros ensinamentos, mas no caso da "Fazenda de Pedra", como era conhecida na vila, era de botar medo em qualquer um que tentasse chegar perto. E lá ele vivia, um dia de cada vez, sem poder sair. Sua mãe contava que era perigoso ver o mundo, pois o mesmo estava corrompido com trevas. Enquanto ela saia diariamente para trabalhar na casa de um cavaleiro do rei, cuidando de sua filha. Sir. Ilian Reitan era viúvo de uma bela moça chamada Clara, um dia ele acordou e ela não estava ao seu lado, os lençóis estavam sujos com sangue e marcas de patas que pareciam ser de lobos. Não se sabe ao certo o que aconteceu a ela, mas as pegadas formavam uma trilha que dava na floresta sombria, após 5 dias ele desistiu das buscas e aceitou que perdera seu grande amor.
   Enfim levantou e foi até a cozinha, viu que estava vazia, tomou a liberdade de furtar um biscoito de chocolate do pote. Comeu um pedaço e saboreou aquele divino gosto de liberdade, sentiu-se nas fazendas de cacau com outros fazendeiros cantando e colhendo. Imaginou o vento em seu rosto e o sol queimando sua pele exposta. Não era diferente do que ir na varanda e sentir o vento ou deitar na grama e sentir o sol, mas liberdade de poder sentir outros ventos e outros sóis fazia com que ele imaginasse frequentemente a possibilidade de visitar outros lugares. Ao abrir os olhos, terminou de comer e procurou a mãe, ela estava no pomar, cavando terra com os pés no chão e cantava. A linda canção, unida com a bela voz de Oria, invadiu seus ouvidos e logo reconheceu a melodia de uma música que falava sobre uma bela moça que vivia a buscar a rosa mais bela para seu casamento.
   "Essa canção me lembra muito uma pessoa", disse ele, aparecendo de surpresa e dando um susto em sua mãe que a fez gritar.
   "Já lhe disse que não fizesse esse tipo de coisa, um dia morrerei por isso"
   "Ora, deixe de dizer bobagens. Ninguém morre de susto"
   "Sabes bem da estória dos dois irmãos"
   "Sei, contaste-me várias vezes, e não pretendo ouvir mais uma vez", ela sorriu, "Posso pedir-lhe uma coisa?"
   "Se for aquela mesma pergunta, já estás ciente da resposta!"
   "Mas eu preciso sair! Conhecer o mundo, conheces minha vontade de viajar e saber das pessoas. Respirar o mesmo ar que elas. Não quero perecer uma eternidade cuidando de porcos."
   "Por falar em porcos..."
   "Eles podem esperar. São animais, não se importam"
   "Mas estão vivos, sentem fome e sede de água limpa"
   "Um presente de aniversário!", ela parou de cavar, respirou e sorriu, essa era sua expressão quando sabia que perderia aquele jogo. "Lembra da promessa de não deixar de realizar um pedido de presente em meu aniversário?"
   "Claro que lembro. Hoje me arrependo de tê-la feito"
   "Mas vai cumprir, certo?", depois de um longo silêncio ela respondeu olhando-o nos olhos:
   "Um dia apenas, amanhã irei à feira, virás comigo. Mas fará tudo o que eu mandar, e obedecerás sem reclamar."
   Ele pulou, gritou e correu para abraçá-la ali mesmo no chão de areia. Beijou-a diversas vezes no rosto e então sentou-se ao seu lado. Ela acariciou seu rosto e disse:
   "Aparentas muito a teu pai. Gostava de ser livre, viajamos para longe, muitas vezes, vimos paisagens dignas de uma bela pintura. Ah, meu filho, não sabes o aperto que me dá saber que só terei mais um ciclo ao teu lado", ele abriu a boca para falar e ela o interrompeu, "Não pergunte, na hora certa saberá! Por enquanto saiba que tenho orgulho de você. Hoje completa 17 ciclos, filho de Yorah e Oria Hass, herdeiro da terra e dos céus, fruto da união das famílias dos touros e dos pássaros, forte e livre, seu nome vem de um legado e por isso te chamas Taurus Hass."


Continuação: 31 de janeiro

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